domingo, 13 de maio de 2018
A Costureira
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018.
Os gêmeos
Eram 3 crianças: 2 gêmeos e uma bebê de colo; o pai parecia tão perdido quanto os gêmeos que pareciam estar prestes a voar pela primeira vez de suas respectivas vidas. Fim de tarde, o céu estava alaranjado, era um privilégio ir até o meio da pista de pouso e decolagem. Dentro daquele avião parecia que tinha-se uma varanda privativa com vista privilegia do por do sol. Um verdadeiro camarote. Dos gêmeos; um parecia fascinado com toda aquela situação. "Como assim a gente vai voar?" - pensava. O outro estava aterrorizado, inconsolável com tudo aquilo que acontecia. Era o puro e mais simples terror, transmitido através dos seus prantos. O braço do pai não lhe parecia seguro; nenhum lugar parecia seguro, na verdade. Esboçou um olhar pra mãe, que estava embalando a bebê, mas logo viu que ali não encontraria nenhuma ajuda. E por isso chorava. Esperneava. Gritava a plenos pulmões. Nada podia livra-lo daquele momento de terror com data e hora marcada para acontecer; e ele sabia disso. Aquele choro era de puro desespero. O outro gêmeo, perdido em meio a todo aquele caos, parecia desbravar uma floresta nunca antes visitada. Tudo aquilo era absolutamente novo. Aquela máquina enorme; asas compridas; antes vistas só por fotos, vídeos ou bem alto no céu; mas nunca de tão perto. E agora estava entrando numa delas; era extraordinário. Sentaram-se os três; o pai no meio, um gêmeo na janela, o outro no corredor. Agora a mãe e o companheiro estavam ambos em cada um dos lados do gêmeo mais atordoado. O sentimento mais próximo do medo que o outro gêmeo sentia era a euforia. Uma ânsia pelo desconhecido. O tempo passou e logo percebeu que aquilo não seria tão emocionante assim, viajar de ônibus era basicamente a mesma coisa. O outro, no mesmo tempo, percebeu o mesmo; de fato era que nem viajar de ônibus. Você entrava numa máquina, passava algum tempo lá dentro e quando você saia, estava em outro lugar muito diferente. Às vezes não tão diferente assim. Ao fim da loucura do embarque e decolagem ambos dormiram. Era só mais uma viagem.
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Manta
manhã chuvosa,
lençol em cima
cama em baixo
sono no meio,
nariz entupido.
todo movimento é
custoso.
parece que se está coberto de algum tipo de cola,
daquelas bem grudentas,
melequentas.
lembranças do calor de uma noite intensa e espontânea.
sábado, 31 de março de 2018
Sensação Estranha
Estranho,
não como alguém que não se conhece,
Mas como quem diz 'seu rosto não me é estranho'.
Como alguém que já esteve na sua mente,
Nos seus pensamentos,
No segundo plano, na memória inconsciente.
Sua mente sabe; VOCÊ não.
Uma luta contra a prostração
Uma agonia constante
Da qual se esquece e volta e meia se recorda.
É como se, na sua frente, estivesse escrito bem grande e em letras garrafais '1+1'
Depois tem um sinal de igualdade
Mas o resultado não bate.
Mensagem de ERRO#57: argumentos da operação não são válidos.
Tá lá escrito: HUM MAIS HUM
Deveria ocorrer tudo bem, mas não acontece.
Você tem tudo pra que o resultado dê DOIS
Mas não dá e eu não sei o porquê.
Vamos atrás de respostas.
Câmbio desligo.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Paredes
Vocês se isolam.
As casas, como condomínios,
Fechadas.
Dentro da própria cabeça
Dentro dos carros.
Os ouvidos, como carros,
Blindados.
Distantes da rua,
Do mundo.
Não entendem.
Agora perguntam porque.
É que seus muros e suas paredes,
Antes tinham ouvidos,
Eles diziam.
Aos gritos e berros
Tento lhe dizer,
Mas agora são os ouvidos,
Selados, lacrados,
Que têm paredes.
quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Brinco
domingo, 17 de dezembro de 2017
Míope
O rapaz na minha frente caminhava lentamente dentro do avião, segurava um livro numa das mãos e puxava a sua mala de rodinhas. Era uma mala particularmente pequena, e enquanto ia no seu passo lento, sendo arrastada pelo seu dono, acabou ficando presa em uma das poltronas. Normal. As malas costumam esbarrar. O seu dono puxou-a e ela voltou ao seu caminho. Eu acabei chegando mais perto dele. Ela - a mala - se encontrava feliz e saltitante, agora no seu caminho novamente. Por um segundo imaginei 'e se a mala se ficasse presa novamente na poltrona logo em frente?'. E, como se aquele pensamento fosse o motivo da desgraça daquela mala, ela acabou ficando presa. Deu pra ver a vergonha que ela sentiu. Ela falhou no seu trabalho, seu único trabalho. O rapaz parecia aborrecido por ter sido feito de bobo, ao arrastar uma mala. Afinal ela ficou presa duas vezes ao passar entre as poltronas de um avião. E ela sabia disso, ela estava desolada, o quê que ela iria fazer agora? Já não servia de nada. O seu dono puxou-a novamente para o meio da poltronas, dava ver que, de fato, ele estava levemente aborrecido por ter quase parado e interrompido o fluxo de pessoas no corredor. Ele continuou a andar. A mala já não esboçava reação; estava atônita, parecia só ver o mundo ao seu redor ir e vir, não queria mais fazer o que fazia melhor, porque não podia fazer o seu melhor, ela não conseguia, era impossível. Naquele momento o seu destino aparentava estar traçado e, novamente, a mala ficou presa. Eu tive que parar, cheguei muito perto do mala e do seu dono. Agora, com certeza, ele sentia no mínimo algum constrangimento; a situação era boba e levemente cômica. O corredor não estava vazio, mas, apesar de só eu e ele estarmos andando e de que havia bastante espaço na frente e atrás de nós dois, ainda assim ele acabou me fazendo parar e esperar. Ele parou, deu mais um passo, puxou e levantou mala em direção ao bagageiro. Agora ela estava acomodada, quieta ali no bagageiro. Provavelmente uma das rodinhas estava com problemas, da pra consertar.