quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sede

Era quinta e, apesar de estar de férias, ele resolveu ir com um amigo até o bar próximo à universidade. Este tinha aula, aquele não, mas ambos desistiram dos cigarros foram para aula. Blocos econômicos, maçante para alguns, mas não para Elon, a mente dele tinha sede de informação - esse era seu mal, sua ruína e sua virtude - tinha uma sede que parecia não cessar. Saíram dali só no fim, chuviscava um pouco naquele fim de tarde.
Um deles conhecia um restaurante francês liderado por uma turca, a dona; uma cozinheira de mão cheia, segundo Leite - não se sabia ao certo porque, mas ele atendia por esse nome. Dirigiram até lá. havia um congestionamento mas nada fora do normal para a hora, a chuva continuava, o limpador do para-brisa estava ruim. Comeram.
Elon escolheu um para levar para viagem, lembrando de sua irmã, mas ela reclamou:
- Muito insossa essa comida falta, pimenta.

Elon não demorou muito em casa, iria visitar seu sobrinho que acabara de mudar-se para um novo apartamento. Ele, seu sobrinho, seria pai dali alguns meses, estava começando uma vida com sua parceira; por isso - não só por isso, ele sentia saudade do sobrinho - foi fazer a visita.
- Qual o endereço? - Perguntou Elon.
- Ok, daqui a pouco chego aí.
Realmente foi rápido, dirigiu por pouco tempo, o novo lar foi fácil de encontrar. Com certeza, ninguém pretendia se esconder do mundo ali. Elon era novo, apesar de ser tio. Daniel, apesar de sobrinho, era quase da idade de Elon, desde sempre se deram muito bem.
Estavam presentes Daniel e sua parceira, Marina, Elon e Pedro, um amigo de infância de Daniel. Chegando lá, abriram-se cervejas, a conversa flui, todos interagiam entre si mas, eventualmente, Daniel e Elon se viam conversando mais entre si, o mesmo acontecia entre Marina e Pedro. Conhecendo Elon como só ele conhecia, Daniel propôs que fumassem um, fumaram. Foi uma onda muito calma e emotiva, lembraram da infância, como que a pouco eram crianças e agora, no caso de Daniel, pai.
- Quando for fumar em casa, beba algo, hidrate-se. - disse, Elon - de preferencia qualquer bebida que não seja alcoólica.
- Tem razão, nunca parei pra pensar nisso. - respondeu.
- É as vezes a gente se descuida mesmo, mas é bom, sempre faço.
- Pô, obrigado pela dica, sério. - agradeceu Daniel.
- Relaxa, os mais velhos estão aí para isso, preste sempre atenção ao que eles têm para falar, a vivencia muito enriquecedora para as pessoas. Nossa mente funciona como um computador, posso não saber qual a explicação fisiológica para isso, mas sei que faz bem.

Já era noite há algumas horas, quando saiu de lá, não foi para casa. Elon não queria ir para casa naquela noite, e o fez. Saiu do seu sobrinho rumo a um karaokê, ambiente que sempre lhe era amigável lá estavam algumas amigas e amigos, de diferentes datas, diferentes perspectivas e momentos, mas que acabaram identificando-se uns nos outros.
Era um pequeno bar, havia caruru, a cerveja era gelada, não havia aperto e era eclético. Tocou de The killers a tecno brega. Já era tarde, após mais ou menos um hora depois que Elon chegou, o bar fechou. Durante esse processo, pagar das contas e o limpar das mesas, Elon foi para sua mesa e fechou um cigarro, conversou com as pessoas da mesa ao lado, ofereceram um salve, fumaram e conversaram. Seus amigos vieram, após fecharem a conta, conversaram também.

Elon não podia ir para casa naquela noite. Deu carona para Lorena, ele já a conhecia, as nunca havia conversado com ela como naquela noite, naquele bar. No caminho até a casa dela, discutiram sobre o que é a vida nômade daqueles que escolhem (ou não) fazer morada outro lugar, diferente daquele em que nasceu, morada. Ele morava em Goiânia, ela Istambul, mas as dores e, principalmente, o aprendizado era o mesmo. Ambos estavam ali de passagem, vendo as pessoas e a cidade que tanto conhecem se esvair e renascer, renascendo dentro de si mesma, de uma forma bonita. Mas a vida é isso, é aprender que as coisas mudam, as pessoas mudam, você muda e toda a sua percepção do mundo muda junto.
Foram vinte minutos de conversa até a casa dela, mas pareceu uma eternidade, e, ao mesmo tempo, pouquíssimo. Daquelas conversas que fazem bem, dão ânimo e fôlego. Todos que tiveram uma conversa dessa sabem da sensação, ela é única.

A noite não acabou, assim como a vontade de Elon de não ir para casa. Após deixar Lorena em sua casa, foi ao encontro de um grande amigo de infância, em outro bar, o seu bar preferido. Era um bar simples, bastante simples, não havia nada demais ali além de um bom atendimento. O amigo era o Pereira, que acabara de entregar um projeto, naquela madrugada, e queria espairecer a mente. Conversaram sobre o projeto, as dificuldades, as realizações. Conheci um amigo do Pereira, trabalharam juntos nesse projeto, não lembro o nome dele, mas gostei da nossa conversa. Ele parecia ter o que falar. Duas cervejas, e a noite acabou. Despedimos.

Dessa vez, Elon retornou aos seus aposentos. E dormiu. Dormiu com a certeza de que não acordaria o mesmo. Dormiu feliz, sabendo que toda aquela noite tinha sido suficiente para matar a sua sede. Sede daquelas conversas que fazem bem, sede de pessoas, sede de informação. Ele queria poder perceber tudo o que aquela noite o oferecia, ele precisava disso como um computador precisa de bits para processar e poder fazer-se útil.

quarta-feira, 26 de julho de 2017
g.a.




Fernanda

Pele branca,
Como leite;
Cabelos pretos,
Como um café forte.
Fernanda,
Com éfe de força
Mal sabe que,
para alguém,
ela é como um norte.

g.a.