domingo, 17 de dezembro de 2017

Míope



Eu estava entrando no avião, estava tudo sob controle, o embarque ocorreu com sucesso. Entrei no avião, segui por entre as poltronas. Estava quente. Na verdade eu que estava quente e eufórico.
O rapaz na minha frente caminhava lentamente dentro do avião, segurava um livro numa das mãos e puxava a sua mala de rodinhas. Era uma mala particularmente pequena, e enquanto ia no seu passo lento, sendo arrastada pelo seu dono, acabou ficando presa em uma das poltronas. Normal. As malas costumam esbarrar. O seu dono puxou-a e ela voltou ao seu caminho. Eu acabei chegando mais perto dele. Ela - a mala - se encontrava feliz e saltitante, agora no seu caminho novamente. Por um segundo imaginei 'e se a mala se ficasse presa novamente na poltrona logo em frente?'. E, como se aquele pensamento fosse o motivo da desgraça daquela mala, ela acabou ficando presa. Deu pra ver a vergonha que ela sentiu. Ela falhou no seu trabalho, seu único trabalho. O rapaz parecia aborrecido por ter sido feito de bobo, ao arrastar uma mala. Afinal ela ficou presa duas vezes ao passar entre as poltronas de um avião. E ela sabia disso, ela estava desolada, o quê que ela iria fazer agora? Já não servia de nada. O seu dono puxou-a novamente para o meio da poltronas, dava ver que, de fato, ele estava levemente aborrecido por ter quase parado e interrompido o fluxo de pessoas no corredor. Ele continuou a andar. A mala já não esboçava reação; estava atônita, parecia só ver o mundo ao seu redor ir e vir, não queria mais fazer o que fazia melhor, porque não podia fazer o seu melhor, ela não conseguia, era impossível. Naquele momento o seu destino aparentava estar traçado e, novamente, a mala ficou presa. Eu tive que parar, cheguei muito perto do mala e do seu dono. Agora, com certeza, ele sentia no mínimo algum constrangimento; a situação era boba e levemente cômica. O corredor não estava vazio, mas, apesar de só eu e ele estarmos andando e de que havia bastante espaço na frente e atrás de nós dois, ainda assim ele acabou me fazendo parar e esperar. Ele parou, deu mais um passo, puxou e levantou mala em direção ao bagageiro. Agora ela estava acomodada, quieta ali no bagageiro. Provavelmente uma das rodinhas estava com problemas, da pra consertar.
12/12/17

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Superfície

Uma área delimitada.
Por um conjunto finito de pontos num plano, pode ser representada.
A parte externa e 'visivel' dos corpos.
Superficialmente, reprentei só meus sentimentos.
Várias definições, vários significados e descontentamentos.
Mr M: te engana, te ilude
Falsas promessas, palavras vazias, talvez ajude.
Dicionário repleto de letras desenhadas
Figurativo, pronome, gênero, hoje não importam nada.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Continuemos

Continuemos a andar
Só nós.
Sozinhos nós vamos longe
Vamos lembrando um do outro
Se ajudando
Se amando
Se cuidando
Nós vamos.
Vamos bem longe
Você acha que não vai conseguir, mas vai
Veja onde já chegamos,
Veja onde nós estávamos,
Calma
Me empurre pra frente
Que te ajudo a subir
Continuemos a nos ajudar
Nós estamos só começando.

domingo, 15 de outubro de 2017

Ansiedade

To bem cansado daqui apesar de tudo ao meu redor estar muito bom.
Cansado não, apreensivo.
Como se algo ruim estivesse prestes a acontecer, como se fosse a calmaria que precede a tempestade.
Como se isso tudo que ta acontecendo ao meu redor fosse desabar a qualquer momento.
Como se o peso de tudo aquilo que eu falo, faço e até penso fosse finalmente ser cobrado de mim, cobrado em ouro.
Parece que contraí uma dívida crescente que parece não ter fim e não tenho a menor ideia de como vou pagá-lo.
Não tenho a menor ideia a quem pagá-lo.
É um monstro invisível que a qualquer momento vai saltar das profundezas e me desmascarar, me pôr abaixo.
E ali, naquele ato, irá me destruir, acabar comigo.

domingo, 3 de setembro de 2017

Novas conexões

Nós somos formados por quem está ao nosso redor.
O engraçado é, a medida que vamos conhecendo novas pessoas e nos identificamos com diferentes grupos, e criamos novas conexões, sentimos que algumas delas nos faltam.
Algumas das conexões ainda precisam acontecer.
Você sente isso,
Seu peito clama por isso,
Sua mente te atormenta,
Sua respiração muda,
Seu corpo sente que precisa disso.
Mais engraçado ainda é ser capaz de sentir essa necessidade de se conectar mesmo antes de conhecer quem estabelecerá essa conexão com você.
É bonito pensar que algo tão específico e intrínseco seja capaz de te apontar para outra pessoa. Que algo tão pessoal te faça querer conhecer outra pessoa.
Alguém a quem você irá se conectar por aquele primeiro canal e que talvez ele seja o primeiro de muitas outras interações.
Talvez não. E tudo bem, se não.
Ou talvez esse meu eu ainda é muito ingênuo de achar que toda a conexão que sinto necessidade, irá acontecer. Será possível 'estabelecer uma conexão com sucesso'.
Mas não é dessa forma que o mundo funciona.
Ainda assim, continuo.
Continuo porque nada me faz mais vivo do que a ideia de poder me conectar com quem necessito. Ou de ter a felicidade de poder ser a conexão que faltava na vida de alguém.

g.a.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Nunca pare na pista

não quero desistir
mas não sei o que devo fazer.
eu quero continuar
meus ânimos se esgotaram
talvez por falta de estímulo
não por falta de apoio
mas pela ausência de caricia no ego
talves fosse isso, a necessidade de se sentir melhor
mais que melhor, superior.
nada que você faz agora,
nada,
nada importa, mas
Nunca pare na pista
Nunca pare
Nunca
Agir te torna vivo
É sempre melhor estar vivo do que estar morto.
O único impossível da vida é parar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Ele foi

Foi porque era a única opção.
Não que fosse, de fato, a única
Mas era única para ele,
Assim como aquele amor que passou.
Não foi único mas o único até ali.
Ele foi
Continuou indo
Apoiaram-no
Parabenizaram-no pela sua ousadia
Mas nunca alguém lhe perguntou se aquele era o caminho certo
Nem ele mesmo sabia, como que iria saber?
Nunca deixaram-no solto, vivia em um ambiente controlado
O estranho é: sempre foi tão confortável, tão bom
Estar ali, rodeado, tendo o ego acariciado
E ele foi
Foi bem longe
Tão longe que nem mesmo ele pôde imaginar onde iria chegar.
Foi bem recebido.
E ali, bem longe, percebeu o que havia perdido tempo.
Ele foi e gostou,
Gostou muito.
A princípio, hesitou,
Como quem coloca primeiro um dos pés na água de uma piscina gelada.
Mas notou que, assim como a piscina gelada, aquele frio o atraía.
E como isso em mente, mergulhou.
Mergulhou de cabeça em um mundo diferente daquele que vivia
Se sentia tão bem ali,
Apesar do frio e das vezes que engoliu água,
Gostava dali.
Era bom.
Era muito melhor que tudo que tinha acontecido até ali.
Se sentia vivo, como nunca havia estado antes.
Ele foi.
Viveu o inimaginável.
Não acreditaria se lhe contassem tudo aquilo que estava acontecendo,
Não acreditaria se ele mesmo lhe contasse.
Impossível.
Durante a jornada, adoeceu.
Um vírus, adormecido dentro dele, acordou com toda aquela agitação.
Ele tomou uns remédios e passou,
Mas nunca se curou de verdade,
Sempre havia aquele pigarro.
Disfarçava a tosse, achava que ninguém iria perceber.
Se enganava.
Evitava até pensar na doença,
Não queria acordá-la.
Essa doença, na verdade, era um ideia;
Que, como um vírus,
Altamente contagiosa e resiliente,
Sempre retornava.
Retornava para atormentá-lo.
Ele foi,
Mas percebeu que não tinha a menor ideia para onde estava indo
E não gostava da ideia de que tudo aquilo que percorreu foi em vão.
Entretanto, era o que parecia.
Essa era a ideia, esse era o vírus.
Lhe doía pensar que precisou ir tão longe para saber que estava perdido,
Já era muito fundo, tudo era escuro.
Talvez nem fosse possível retornar à superfície,
Não tinha forças para emergir,
Se afogaria antes que conseguisse.
Ele foi,
Continuou indo,
Continuou mesmo sem saber se estava indo pelo caminho certo.
Mas continuou mesmo assim,
Na esperança de que
No caminho,
Ou no fim,
Encontrasse o remédio que curasse a sua doença.


g.a.
02:58




quarta-feira, 26 de julho de 2017

Sede

Era quinta e, apesar de estar de férias, ele resolveu ir com um amigo até o bar próximo à universidade. Este tinha aula, aquele não, mas ambos desistiram dos cigarros foram para aula. Blocos econômicos, maçante para alguns, mas não para Elon, a mente dele tinha sede de informação - esse era seu mal, sua ruína e sua virtude - tinha uma sede que parecia não cessar. Saíram dali só no fim, chuviscava um pouco naquele fim de tarde.
Um deles conhecia um restaurante francês liderado por uma turca, a dona; uma cozinheira de mão cheia, segundo Leite - não se sabia ao certo porque, mas ele atendia por esse nome. Dirigiram até lá. havia um congestionamento mas nada fora do normal para a hora, a chuva continuava, o limpador do para-brisa estava ruim. Comeram.
Elon escolheu um para levar para viagem, lembrando de sua irmã, mas ela reclamou:
- Muito insossa essa comida falta, pimenta.

Elon não demorou muito em casa, iria visitar seu sobrinho que acabara de mudar-se para um novo apartamento. Ele, seu sobrinho, seria pai dali alguns meses, estava começando uma vida com sua parceira; por isso - não só por isso, ele sentia saudade do sobrinho - foi fazer a visita.
- Qual o endereço? - Perguntou Elon.
- Ok, daqui a pouco chego aí.
Realmente foi rápido, dirigiu por pouco tempo, o novo lar foi fácil de encontrar. Com certeza, ninguém pretendia se esconder do mundo ali. Elon era novo, apesar de ser tio. Daniel, apesar de sobrinho, era quase da idade de Elon, desde sempre se deram muito bem.
Estavam presentes Daniel e sua parceira, Marina, Elon e Pedro, um amigo de infância de Daniel. Chegando lá, abriram-se cervejas, a conversa flui, todos interagiam entre si mas, eventualmente, Daniel e Elon se viam conversando mais entre si, o mesmo acontecia entre Marina e Pedro. Conhecendo Elon como só ele conhecia, Daniel propôs que fumassem um, fumaram. Foi uma onda muito calma e emotiva, lembraram da infância, como que a pouco eram crianças e agora, no caso de Daniel, pai.
- Quando for fumar em casa, beba algo, hidrate-se. - disse, Elon - de preferencia qualquer bebida que não seja alcoólica.
- Tem razão, nunca parei pra pensar nisso. - respondeu.
- É as vezes a gente se descuida mesmo, mas é bom, sempre faço.
- Pô, obrigado pela dica, sério. - agradeceu Daniel.
- Relaxa, os mais velhos estão aí para isso, preste sempre atenção ao que eles têm para falar, a vivencia muito enriquecedora para as pessoas. Nossa mente funciona como um computador, posso não saber qual a explicação fisiológica para isso, mas sei que faz bem.

Já era noite há algumas horas, quando saiu de lá, não foi para casa. Elon não queria ir para casa naquela noite, e o fez. Saiu do seu sobrinho rumo a um karaokê, ambiente que sempre lhe era amigável lá estavam algumas amigas e amigos, de diferentes datas, diferentes perspectivas e momentos, mas que acabaram identificando-se uns nos outros.
Era um pequeno bar, havia caruru, a cerveja era gelada, não havia aperto e era eclético. Tocou de The killers a tecno brega. Já era tarde, após mais ou menos um hora depois que Elon chegou, o bar fechou. Durante esse processo, pagar das contas e o limpar das mesas, Elon foi para sua mesa e fechou um cigarro, conversou com as pessoas da mesa ao lado, ofereceram um salve, fumaram e conversaram. Seus amigos vieram, após fecharem a conta, conversaram também.

Elon não podia ir para casa naquela noite. Deu carona para Lorena, ele já a conhecia, as nunca havia conversado com ela como naquela noite, naquele bar. No caminho até a casa dela, discutiram sobre o que é a vida nômade daqueles que escolhem (ou não) fazer morada outro lugar, diferente daquele em que nasceu, morada. Ele morava em Goiânia, ela Istambul, mas as dores e, principalmente, o aprendizado era o mesmo. Ambos estavam ali de passagem, vendo as pessoas e a cidade que tanto conhecem se esvair e renascer, renascendo dentro de si mesma, de uma forma bonita. Mas a vida é isso, é aprender que as coisas mudam, as pessoas mudam, você muda e toda a sua percepção do mundo muda junto.
Foram vinte minutos de conversa até a casa dela, mas pareceu uma eternidade, e, ao mesmo tempo, pouquíssimo. Daquelas conversas que fazem bem, dão ânimo e fôlego. Todos que tiveram uma conversa dessa sabem da sensação, ela é única.

A noite não acabou, assim como a vontade de Elon de não ir para casa. Após deixar Lorena em sua casa, foi ao encontro de um grande amigo de infância, em outro bar, o seu bar preferido. Era um bar simples, bastante simples, não havia nada demais ali além de um bom atendimento. O amigo era o Pereira, que acabara de entregar um projeto, naquela madrugada, e queria espairecer a mente. Conversaram sobre o projeto, as dificuldades, as realizações. Conheci um amigo do Pereira, trabalharam juntos nesse projeto, não lembro o nome dele, mas gostei da nossa conversa. Ele parecia ter o que falar. Duas cervejas, e a noite acabou. Despedimos.

Dessa vez, Elon retornou aos seus aposentos. E dormiu. Dormiu com a certeza de que não acordaria o mesmo. Dormiu feliz, sabendo que toda aquela noite tinha sido suficiente para matar a sua sede. Sede daquelas conversas que fazem bem, sede de pessoas, sede de informação. Ele queria poder perceber tudo o que aquela noite o oferecia, ele precisava disso como um computador precisa de bits para processar e poder fazer-se útil.

quarta-feira, 26 de julho de 2017
g.a.




Fernanda

Pele branca,
Como leite;
Cabelos pretos,
Como um café forte.
Fernanda,
Com éfe de força
Mal sabe que,
para alguém,
ela é como um norte.

g.a.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Eu sou um homem muito sortudo

Eu sou um homem muito sortudo.

Eu sou um homem muito sortudo. Nasci num 'berço de ouro'. Sou rico mas não financeiramente, sou rico de pessoas. De pessoas extraordinárias e determinadas, pessoas essas que são as mais fortes que conheci. Pessoas fortes, pessoas que já vi chorar; mas até seus prantos transmitiam força, muita força.

Eu sou um homem muito sortudo. Desde cedo fui rodeado por conhecimento e fui cobrado por isso. Cobrança essa que me levou até onde estou agora escrevendo esse texto pra você: numa varanda de um prédio em uma cidade que até certo ponto da minha vida nunca passou pelos meus planos de sequer visitar. Fui exigido, exigência essa que me formou, me esculpiu, criou em mim um escudo protetor e, com ele, eu era capaz de lidar com tudo e se não conseguisse sabia que aquele escudo estaria ali, me protegendo.

Eu sou um homem muito sortudo. Sempre fui, também, rodeado por amor, muito amor. Amor este que se fez presente em toda minha vida e, se algo desse errado, eu sabia seria amparado por ele. Com esse Amor e o meu Escudo eu era imbatível. Pelo menos achava que era.

Eu sou um homem muito sortudo. Me mudei pra uma cidade que, como eu já disse, até certo ponto nunca havia nem sonhado em visitar. Em muito pouco, muito pouco mesmo, conheci pessoas que, por algum motivo, me tratavam muito bem e riam de minhas piadas e ofereciam suas casas e seus corações, e ainda por cima gostavam do que eu fazia. Foi impressionante em quão pouco tempo que isso aconteceu. Ganhei uma nova arma para o arsenal. Novas pessoas. Novas pessoas que, por algum motivo, me acharam interessante e eu sabia a partir dali que eu poderia contar com elas.

Eu sou um homem muito sortudo, mas a sorte de uma pessoa não pode ser infinita. Eu acho que não. Não pode ser assim. Uma hora isso vai acabar, meu escudo quebrará, o emparo do amor não será suficiente, minha máscara irá cair e as pessoas perceberão que não sou tão interessante assim. Meus erros e más decisões se tornarão grandes demais e meu arsenal não será mais suficiente. Será só eu contra o mundo. Esse dia irá chegar e serei desmascarado, eu sei, mas enquanto ele não chega tenho que dar a Cesar o que é de Cesar e reconhecer que eu sou um homem muito sortudo.

g.a.

domingo, 7 de maio de 2017

Tanta coisa

tanta coisa que eu podia estar fazendo
tanta coisa que eu já faço
tanta coisa que eu não faço
tanta coisa que eu invento de fazer
tanta coisa que eu tento
tanta coisa que eu prometo
tanta coisa que eu esqueço
tanta coisa que eu esqueço que prometi
tanta coisa que eu prometo que esqueci
tanta coisa que me frustra
tanta coisa que enlouquece
tanta coisa perdida
tanta gente
tanta coisa
tanta gente
tanta coisa.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Dia 1

terça-feira, 25 de abril de 2017

Hoje acordei cedo, 06:30 da manhã, tinha aula às 7:30. Mas voltei a dormir, logo em seguida. Acabei indo só pra aula que começava às 9:30, mas cheguei lá às 10:00. 
Me senti um merda. Foda, mais uma aula de SDL que eu faltava. Não queria faltar. Fui dormir cedo, mas não consegui levantar. O pior é que não tem desculpa, dormi cedo, eram 11 da noite quando deitei, eu acho. Fiquei vendo vídeos de carpintaria até adormecer na cama, é bem relaxante ver um cara trabalhar.
Enfim levantei, tomei banho, pus a roupa, peguei o lixo da cozinha e levei pra lixeira do prédio. Saí do prédio rumo a universidade, o caminho era o mesmo de sempre; o tempo estava bom.
Chegando na portaria, peguei uma carona com uma mulher até o prédio onde estudo. Era uma senhora, não prestei muita atenção nela, ainda estava pensando na aula que eu havia perdido. Nessa época eu estava constantemente pensando em como uma sucessão de acontecimentos poderiam atrapalhar tanto a minha vida. 

Outros dois rapazes pegaram carona conosco, fui no banco de trás. A senhora estava a caminho da sua aula de italiano, lá na universidade. Ela nos contou que estava tomando essas aulas porque iria visitar sua filha que se casou esta morando lá, no sul da Itália, região Sardegna, se não me engano. A conversa fluiu, ela lembrou de um sobrinho que fez intercâmbio através da universidade, um dos rapazes falou que dali alguns meses iria para a França, passaria 3 anos, eu só ouvi. Deixamos os rapazes, fui para o banco da frente, a conversa continuou, ela perguntou se eu não pensava em fazer intercâmbio, respondi que sim mas que haviam acabado os programas gratuitos de intercâmbio da universidade.Ela falou do governo que não está nem aí pra educação, concordei em um tom desapontado. Chegamos no meu prédio, ela me deixou em frente a entrada, agradeci e desci do carro. 

Fui para a aula. Chegando lá era de uma matéria que eu havia reprovado por muito pouco. No semestre anterior fui muito mal na primeira prova, não consegui me recuperar. Já havia feito a primeira prova deste semestre, não tinha recebido a nota ainda, mas sabia que tinha me saído bem. Quem estava dando aula era um professor substituto, doutorando. O professor da matéria acabara de ser pai, estava de licença. 

Cheguei, assinei a lista e sentei no fundo, próximo a três amigos. Nunca tinha visto-os conversando. A aula estava dispersa, eles conversavam sobre a cultura das empresas startups e como que elas funcionavam. Antes de ouvir plenamente sobre o que exatamente era aquela conversa, eu já tinha noção sobre o que se tratava. Há uma semana dali um deles havia me falado sobre uma ideia que poderia se torna uma empresa, uma boa ideia. Nessa ocasião, também, contei-lhe que eu tinha um amigo que trabalhava nesse meio de startups e que poderia ajudá-lo a tirar a sua ideia do papel. Ligando-se os pontos, lá estavam eles conversando. 
Tocou-se no assunto de que outro amigo nosso, que havia ingressado na universidade no mesmo semestre que nós - eu e o primeiro amigo, estava, naquele momento, a caminho da Alemanha para representar a sua empresa. Ela havia sido fundada quando ele estava na universidade, passou por algumas mudanças - algumas bem drásticas - e acabou crescendo. Premiada no Brasil, a empresa agora estava sendo a representante brasileira numa competição no exterior. Um orgulho ter conhecido aquele menino no começo.

Não assisti a aula inteira, o professor substituto não era muito bom. Fui para o grêmio. Chegando lá, havia alguns alunos mais antigos no curso conversando sobre a vida de intercâmbio. Parecia que neste dia o universo resolveu me lembrar continuamente desse assunto. Boas histórias.

Haveria uma reunião dali uns quinze minutos e uma promessa de 'almoço surpresa'. Eram dez para o meio dia, houve tropeiro, arroz e uns refrigerantes, estava uma delícia. A reunião foi produtiva. Aquela havia sido a reunião com o maior número integrantes do grêmio presentes, talvez porque houve comida grátis na hora do almoço. 

Ao longo do dia inteiro eu me pegava, as vezes, pensando nas mentiras que me contaram. Promessas não cumpridas que me deixavam triste, impotente. Me prometeram mentiras e eu descobri da pior maneira. Me prometeram coisas com as quais eu passei anos sonhando e mentalizando. Coisas que talvez não fossem tão boas assim, mas porra, me prometeram essas merdas. Me iludiram. E eu queria muito me iludir, mas não dessa forma, queria me iludir vivendo aquilo que eu achava que era um sonho mas descobrindo que na verdade não era nada disso. Me iludiram da pior maneira, deram o doce pra depois tirar. Foda.

Fui pra casa, pensei em passar na biblioteca para estudar por algum tempo, não o fiz, meu apartamento me parecia melhor. No caminho passei na padaria e comprei um doce que havia descoberto no dia anterior, chamava 'caçarola italiana'. Até então, nunca tinha ouvido falar, mas era uma delícia. Comprei dois. Cheguei em casa, esquentei um no microondas e fui estudar.