quinta-feira, 27 de setembro de 2018

gritos de pessoas em meio as máquinas

como voz que se esvai como agudo que fica como grito de um esquecido.

como indigente, em meio ao caos absoluto,
sem mangas para limpar o nariz

como objeto, diante da máquina
sem digital para ser conferida

indignadas, elas gritam.
aos berros e prantos raivosos,
gritos,
são ouvidos por elas.

pessoas, de carne e osso
que mais aparentam, ser máquinas
no agir e temer

domingo, 13 de maio de 2018

A Costureira

Tenho uma bermuda muito boa, exceto por dois problemas: os dois bolsos da frente sempre estão furados ou prestes a rasgar. Já foram consertados, mas sempre voltam a furar. Todo dia eu passava por uma rua onde uma senhora parecia morar, trabalhar e fazer o que gostava: costurar. Ela e sua máquina ficavam posicionadas exatamente no meio da sala que também fazia de ateliê. Ficava sentada de frente para a rua, com sua máquina de costurar. Esta ficava entre a senhora e a rua. Passei inúmeras vezes na frente daquele lugar no meu caminho diário. Percebi que ela nunca abria a noite, no máximo até o meio da tarde; também nunca muito cedo, mas quase sempre abria. Nas minhas idas e vindas pensei várias vezes em levar a bermuda para consertar os bolsos; até parei e perguntei quanto que custaria fazer o reparo; mas nunca de fato levei-a para o conserto. Hoje eu passei em frente a casa e vi que a costureira e todo o seu ateliê havia sumido, e que ali agora habitava um salão de beleza. E eu continuei com a minha bermuda e os seus bolsos furados, espero que a senhora esteja bem.

g.a.

Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018.

Os gêmeos


Eram 3 crianças: 2 gêmeos e uma bebê de colo; o pai parecia tão perdido quanto os gêmeos que pareciam estar prestes a voar pela primeira vez de suas respectivas vidas. Fim de tarde, o céu estava alaranjado, era um privilégio ir até o meio da pista de pouso e decolagem. Dentro daquele avião parecia que tinha-se uma varanda privativa com vista privilegia do por do sol. Um verdadeiro camarote. Dos gêmeos; um parecia fascinado com toda aquela situação. "Como assim a gente vai voar?" - pensava. O outro estava aterrorizado, inconsolável com tudo aquilo que acontecia. Era o puro e mais simples terror, transmitido através dos seus prantos. O braço do pai não lhe parecia seguro; nenhum lugar parecia seguro, na verdade. Esboçou um olhar pra mãe, que estava embalando a bebê, mas logo viu que ali não encontraria nenhuma ajuda. E por isso chorava. Esperneava. Gritava a plenos pulmões. Nada podia livra-lo daquele momento de terror com data e hora  marcada para acontecer; e ele sabia disso. Aquele choro era de puro desespero. O outro gêmeo, perdido em meio a todo aquele caos, parecia desbravar uma floresta nunca antes visitada. Tudo aquilo era absolutamente novo. Aquela máquina enorme; asas compridas; antes vistas só por fotos, vídeos ou bem alto no céu; mas nunca de tão perto. E agora estava entrando numa delas; era extraordinário. Sentaram-se os três; o pai no meio, um gêmeo na janela, o outro no corredor. Agora a mãe e o companheiro estavam ambos em cada um dos lados do gêmeo mais atordoado. O sentimento mais próximo do medo que o outro gêmeo sentia era a euforia. Uma ânsia pelo desconhecido. O tempo passou e logo percebeu que aquilo não seria tão emocionante assim, viajar de ônibus era basicamente a mesma coisa. O outro, no mesmo tempo, percebeu o mesmo; de fato era que nem viajar de ônibus. Você entrava numa máquina, passava algum tempo lá dentro e quando você saia, estava em outro lugar muito diferente. Às vezes não tão diferente assim. Ao fim da loucura do embarque e decolagem ambos dormiram. Era só mais uma viagem.

g.a.

Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Manta

Resfriado
manhã chuvosa,
lençol em cima
cama em baixo
sono no meio,
nariz entupido.
todo movimento é
custoso.
parece que se está coberto de algum tipo de cola,
daquelas bem grudentas,
melequentas.

lembranças do calor de uma noite intensa e espontânea.

sábado, 31 de março de 2018

Sensação Estranha

Estranho,
não como alguém que não se conhece,
Mas como quem diz 'seu rosto não me é estranho'.
Como alguém que já esteve na sua mente,
Nos seus pensamentos,
No segundo plano, na memória inconsciente.
Sua mente sabe; VOCÊ não.
Uma luta contra a prostração
Uma agonia constante
Da qual se esquece e volta e meia se recorda.
É como se, na sua frente, estivesse escrito bem grande e em letras garrafais '1+1'
Depois tem um sinal de igualdade
Mas o resultado não bate.
Mensagem de ERRO#57: argumentos da operação não são válidos.
Tá lá escrito: HUM MAIS HUM
Deveria ocorrer tudo bem, mas não acontece.
Você tem tudo pra que o resultado dê DOIS
Mas não dá e eu não sei o porquê.
Vamos atrás de respostas.
Câmbio desligo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Paredes

Vocês se isolam.
As casas, como condomínios,
Fechadas.
Dentro da própria cabeça
Dentro dos carros.
Os ouvidos, como carros,
Blindados.
Distantes da rua,
Do mundo.
Não entendem.
Agora perguntam porque.
É que seus muros e suas paredes,
Antes tinham ouvidos,
Eles diziam.
Aos gritos e berros
Tento lhe dizer,
Mas agora são os ouvidos,
Selados, lacrados,
Que têm paredes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Brinco

Naquele dia já tínhamos tomado aquela decisão. Na verdade, uma semana antes dali a gente já tinha tomado essa decisão. Estávamos em frente as luzes, tudo soava azul, roxo e rosa. Os pratos suavam ao vibrarem, as peles brilhavam. Tudo suava. Rita derrubou um dos brincos que estava usando. Era um brinco pequeno, pouco reluzente e barato. Supérfluo. Por isso, depois de algum esforço ele foi esquecido. Simplesmente esquecido. Objetos têm esse privilégio, de ser sem se importar. Existir sem sentir. E foi isso que aconteceu, foi lindo. Primeiro chegou a notícia: 'o brinco sumiu'. Todos próximos o suficiente para ajudar fizeram-se atentos. A música continuava. Aos poucos, dado a intensidade daquele lugar, os grandes esforços que seriam necessários para resgatar o brinco foram sendo percebidos. Dava pra sentir no ar que o brinco foi esquecido, que a partir dali a existência dele na vida de quem o tinha visto provavelmente deixaria de importar. Até rita percebeu que aquele brinco, com todo o seu significado, se foi. Fechou-se o ciclo da existência do brinco. Era visível naquela atmosfera neon a forma como as pessoas foram aos poucos se esquecendo dele, deixando pra lá. Como os olhares se distanciavam dele, como que, aos poucos, sua existência foi sendo negada. Afinal, o brinco caiu no chão, ele não se desintegrou. Eles estava ali em algum lugar. Mas tudo bem, era só um brinco. E tudo bem também, porque dez minutos depois rita reencontrou o brinco por entre aquele som volumoso as pernas das pessoas.