quinta-feira, 18 de janeiro de 2018
Brinco
Naquele dia já tínhamos tomado aquela decisão. Na verdade, uma semana antes dali a gente já tinha tomado essa decisão. Estávamos em frente as luzes, tudo soava azul, roxo e rosa. Os pratos suavam ao vibrarem, as peles brilhavam. Tudo suava. Rita derrubou um dos brincos que estava usando. Era um brinco pequeno, pouco reluzente e barato. Supérfluo. Por isso, depois de algum esforço ele foi esquecido. Simplesmente esquecido. Objetos têm esse privilégio, de ser sem se importar. Existir sem sentir. E foi isso que aconteceu, foi lindo. Primeiro chegou a notícia: 'o brinco sumiu'. Todos próximos o suficiente para ajudar fizeram-se atentos. A música continuava. Aos poucos, dado a intensidade daquele lugar, os grandes esforços que seriam necessários para resgatar o brinco foram sendo percebidos. Dava pra sentir no ar que o brinco foi esquecido, que a partir dali a existência dele na vida de quem o tinha visto provavelmente deixaria de importar. Até rita percebeu que aquele brinco, com todo o seu significado, se foi. Fechou-se o ciclo da existência do brinco. Era visível naquela atmosfera neon a forma como as pessoas foram aos poucos se esquecendo dele, deixando pra lá. Como os olhares se distanciavam dele, como que, aos poucos, sua existência foi sendo negada. Afinal, o brinco caiu no chão, ele não se desintegrou. Eles estava ali em algum lugar. Mas tudo bem, era só um brinco. E tudo bem também, porque dez minutos depois rita reencontrou o brinco por entre aquele som volumoso as pernas das pessoas.
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