Tenho uma bermuda muito boa, exceto por dois problemas: os dois bolsos da frente sempre estão furados ou prestes a rasgar. Já foram consertados, mas sempre voltam a furar. Todo dia eu passava por uma rua onde uma senhora parecia morar, trabalhar e fazer o que gostava: costurar. Ela e sua máquina ficavam posicionadas exatamente no meio da sala que também fazia de ateliê. Ficava sentada de frente para a rua, com sua máquina de costurar. Esta ficava entre a senhora e a rua. Passei inúmeras vezes na frente daquele lugar no meu caminho diário. Percebi que ela nunca abria a noite, no máximo até o meio da tarde; também nunca muito cedo, mas quase sempre abria. Nas minhas idas e vindas pensei várias vezes em levar a bermuda para consertar os bolsos; até parei e perguntei quanto que custaria fazer o reparo; mas nunca de fato levei-a para o conserto. Hoje eu passei em frente a casa e vi que a costureira e todo o seu ateliê havia sumido, e que ali agora habitava um salão de beleza. E eu continuei com a minha bermuda e os seus bolsos furados, espero que a senhora esteja bem.
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018.
domingo, 13 de maio de 2018
Os gêmeos
Eram 3 crianças: 2 gêmeos e uma bebê de colo; o pai parecia tão perdido quanto os gêmeos que pareciam estar prestes a voar pela primeira vez de suas respectivas vidas. Fim de tarde, o céu estava alaranjado, era um privilégio ir até o meio da pista de pouso e decolagem. Dentro daquele avião parecia que tinha-se uma varanda privativa com vista privilegia do por do sol. Um verdadeiro camarote. Dos gêmeos; um parecia fascinado com toda aquela situação. "Como assim a gente vai voar?" - pensava. O outro estava aterrorizado, inconsolável com tudo aquilo que acontecia. Era o puro e mais simples terror, transmitido através dos seus prantos. O braço do pai não lhe parecia seguro; nenhum lugar parecia seguro, na verdade. Esboçou um olhar pra mãe, que estava embalando a bebê, mas logo viu que ali não encontraria nenhuma ajuda. E por isso chorava. Esperneava. Gritava a plenos pulmões. Nada podia livra-lo daquele momento de terror com data e hora marcada para acontecer; e ele sabia disso. Aquele choro era de puro desespero. O outro gêmeo, perdido em meio a todo aquele caos, parecia desbravar uma floresta nunca antes visitada. Tudo aquilo era absolutamente novo. Aquela máquina enorme; asas compridas; antes vistas só por fotos, vídeos ou bem alto no céu; mas nunca de tão perto. E agora estava entrando numa delas; era extraordinário. Sentaram-se os três; o pai no meio, um gêmeo na janela, o outro no corredor. Agora a mãe e o companheiro estavam ambos em cada um dos lados do gêmeo mais atordoado. O sentimento mais próximo do medo que o outro gêmeo sentia era a euforia. Uma ânsia pelo desconhecido. O tempo passou e logo percebeu que aquilo não seria tão emocionante assim, viajar de ônibus era basicamente a mesma coisa. O outro, no mesmo tempo, percebeu o mesmo; de fato era que nem viajar de ônibus. Você entrava numa máquina, passava algum tempo lá dentro e quando você saia, estava em outro lugar muito diferente. Às vezes não tão diferente assim. Ao fim da loucura do embarque e decolagem ambos dormiram. Era só mais uma viagem.
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018
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