sábado, 2 de fevereiro de 2019
sensação engraçada
sentia como se minha cabeça, ao contrarário da forma oval que é dela normalmente, fosse uma cobra. O topo da minhca cabeça se afastava da base da minha cabeça e o caminho entre essas duas partes parecia um tronco tubular e retorcido, como um tronco de uma cobra, como um cano curvado em S. Era como se minha cabeça virasse uma espécie de enguia, mole e balançante, igualzinho aquelas molas de brinquedo dos anos 90. Como se minha cabeça fosse de fato feita de mola e alguem pegasse ela na altura da minha testa e levantasse, esticando meu rosto, minhas feições, meus traços, meus olhos, meu suor na pele e espinhas no rosto. ou como se a parte de cima da minha cabeça pegasse e saísse voando, como se criasse asas e saísse pairando por ai, mas continuasse presa através da mola, naquilo que era e sempre foi a parte de baixo do rosto, os dentes e a boca. e nesse esticar da cabeça, acabava-se por esticar os olhos, esticar bem comprido, bem longe assim. os olhos fatiado em tiras bem fininhas, como um queijo, e essas tirinhas, cada uma delas, são capazes de ver tudo individualmente. cada fatia do olho hora antes estático, agora esticado ao longo do comprimento da mola, cada fatia funcionava como um novo olho. a visão duplicava quando se tinha o olho esticado em dez partes. geralmente via-se tudo a seu redor amplificado de, no mínimo, dez vezes. visao multicanal, multilinguas, multiparcelada, multada, mutada, muda, triste, frustrada, salgada, alegre, euforica, atenta, nem tanto, superior, interna, panoramica, e maravilhosa.
foi assim que me senti por um pequeno instante.
quinta-feira, 27 de setembro de 2018
gritos de pessoas em meio as máquinas
como voz que se esvai como agudo que fica como grito de um esquecido.
como indigente, em meio ao caos absoluto,
sem mangas para limpar o nariz
como objeto, diante da máquina
sem digital para ser conferida
indignadas, elas gritam.
aos berros e prantos raivosos,
gritos,
são ouvidos por elas.
pessoas, de carne e osso
que mais aparentam, ser máquinas
no agir e temer
domingo, 13 de maio de 2018
A Costureira
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018.
Os gêmeos
Eram 3 crianças: 2 gêmeos e uma bebê de colo; o pai parecia tão perdido quanto os gêmeos que pareciam estar prestes a voar pela primeira vez de suas respectivas vidas. Fim de tarde, o céu estava alaranjado, era um privilégio ir até o meio da pista de pouso e decolagem. Dentro daquele avião parecia que tinha-se uma varanda privativa com vista privilegia do por do sol. Um verdadeiro camarote. Dos gêmeos; um parecia fascinado com toda aquela situação. "Como assim a gente vai voar?" - pensava. O outro estava aterrorizado, inconsolável com tudo aquilo que acontecia. Era o puro e mais simples terror, transmitido através dos seus prantos. O braço do pai não lhe parecia seguro; nenhum lugar parecia seguro, na verdade. Esboçou um olhar pra mãe, que estava embalando a bebê, mas logo viu que ali não encontraria nenhuma ajuda. E por isso chorava. Esperneava. Gritava a plenos pulmões. Nada podia livra-lo daquele momento de terror com data e hora marcada para acontecer; e ele sabia disso. Aquele choro era de puro desespero. O outro gêmeo, perdido em meio a todo aquele caos, parecia desbravar uma floresta nunca antes visitada. Tudo aquilo era absolutamente novo. Aquela máquina enorme; asas compridas; antes vistas só por fotos, vídeos ou bem alto no céu; mas nunca de tão perto. E agora estava entrando numa delas; era extraordinário. Sentaram-se os três; o pai no meio, um gêmeo na janela, o outro no corredor. Agora a mãe e o companheiro estavam ambos em cada um dos lados do gêmeo mais atordoado. O sentimento mais próximo do medo que o outro gêmeo sentia era a euforia. Uma ânsia pelo desconhecido. O tempo passou e logo percebeu que aquilo não seria tão emocionante assim, viajar de ônibus era basicamente a mesma coisa. O outro, no mesmo tempo, percebeu o mesmo; de fato era que nem viajar de ônibus. Você entrava numa máquina, passava algum tempo lá dentro e quando você saia, estava em outro lugar muito diferente. Às vezes não tão diferente assim. Ao fim da loucura do embarque e decolagem ambos dormiram. Era só mais uma viagem.
g.a.
Este texto foi escrito no dia 15 de abril de 2018
segunda-feira, 9 de abril de 2018
Manta
manhã chuvosa,
lençol em cima
cama em baixo
sono no meio,
nariz entupido.
todo movimento é
custoso.
parece que se está coberto de algum tipo de cola,
daquelas bem grudentas,
melequentas.
lembranças do calor de uma noite intensa e espontânea.
sábado, 31 de março de 2018
Sensação Estranha
Estranho,
não como alguém que não se conhece,
Mas como quem diz 'seu rosto não me é estranho'.
Como alguém que já esteve na sua mente,
Nos seus pensamentos,
No segundo plano, na memória inconsciente.
Sua mente sabe; VOCÊ não.
Uma luta contra a prostração
Uma agonia constante
Da qual se esquece e volta e meia se recorda.
É como se, na sua frente, estivesse escrito bem grande e em letras garrafais '1+1'
Depois tem um sinal de igualdade
Mas o resultado não bate.
Mensagem de ERRO#57: argumentos da operação não são válidos.
Tá lá escrito: HUM MAIS HUM
Deveria ocorrer tudo bem, mas não acontece.
Você tem tudo pra que o resultado dê DOIS
Mas não dá e eu não sei o porquê.
Vamos atrás de respostas.
Câmbio desligo.
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Paredes
Vocês se isolam.
As casas, como condomínios,
Fechadas.
Dentro da própria cabeça
Dentro dos carros.
Os ouvidos, como carros,
Blindados.
Distantes da rua,
Do mundo.
Não entendem.
Agora perguntam porque.
É que seus muros e suas paredes,
Antes tinham ouvidos,
Eles diziam.
Aos gritos e berros
Tento lhe dizer,
Mas agora são os ouvidos,
Selados, lacrados,
Que têm paredes.