sábado, 31 de março de 2018

Sensação Estranha

Estranho,
não como alguém que não se conhece,
Mas como quem diz 'seu rosto não me é estranho'.
Como alguém que já esteve na sua mente,
Nos seus pensamentos,
No segundo plano, na memória inconsciente.
Sua mente sabe; VOCÊ não.
Uma luta contra a prostração
Uma agonia constante
Da qual se esquece e volta e meia se recorda.
É como se, na sua frente, estivesse escrito bem grande e em letras garrafais '1+1'
Depois tem um sinal de igualdade
Mas o resultado não bate.
Mensagem de ERRO#57: argumentos da operação não são válidos.
Tá lá escrito: HUM MAIS HUM
Deveria ocorrer tudo bem, mas não acontece.
Você tem tudo pra que o resultado dê DOIS
Mas não dá e eu não sei o porquê.
Vamos atrás de respostas.
Câmbio desligo.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Paredes

Vocês se isolam.
As casas, como condomínios,
Fechadas.
Dentro da própria cabeça
Dentro dos carros.
Os ouvidos, como carros,
Blindados.
Distantes da rua,
Do mundo.
Não entendem.
Agora perguntam porque.
É que seus muros e suas paredes,
Antes tinham ouvidos,
Eles diziam.
Aos gritos e berros
Tento lhe dizer,
Mas agora são os ouvidos,
Selados, lacrados,
Que têm paredes.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Brinco

Naquele dia já tínhamos tomado aquela decisão. Na verdade, uma semana antes dali a gente já tinha tomado essa decisão. Estávamos em frente as luzes, tudo soava azul, roxo e rosa. Os pratos suavam ao vibrarem, as peles brilhavam. Tudo suava. Rita derrubou um dos brincos que estava usando. Era um brinco pequeno, pouco reluzente e barato. Supérfluo. Por isso, depois de algum esforço ele foi esquecido. Simplesmente esquecido. Objetos têm esse privilégio, de ser sem se importar. Existir sem sentir. E foi isso que aconteceu, foi lindo. Primeiro chegou a notícia: 'o brinco sumiu'. Todos próximos o suficiente para ajudar fizeram-se atentos. A música continuava. Aos poucos, dado a intensidade daquele lugar, os grandes esforços que seriam necessários para resgatar o brinco foram sendo percebidos. Dava pra sentir no ar que o brinco foi esquecido, que a partir dali a existência dele na vida de quem o tinha visto provavelmente deixaria de importar. Até rita percebeu que aquele brinco, com todo o seu significado, se foi. Fechou-se o ciclo da existência do brinco. Era visível naquela atmosfera neon a forma como as pessoas foram aos poucos se esquecendo dele, deixando pra lá. Como os olhares se distanciavam dele, como que, aos poucos, sua existência foi sendo negada. Afinal, o brinco caiu no chão, ele não se desintegrou. Eles estava ali em algum lugar. Mas tudo bem, era só um brinco. E tudo bem também, porque dez minutos depois rita reencontrou o brinco por entre aquele som volumoso as pernas das pessoas.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Míope



Eu estava entrando no avião, estava tudo sob controle, o embarque ocorreu com sucesso. Entrei no avião, segui por entre as poltronas. Estava quente. Na verdade eu que estava quente e eufórico.
O rapaz na minha frente caminhava lentamente dentro do avião, segurava um livro numa das mãos e puxava a sua mala de rodinhas. Era uma mala particularmente pequena, e enquanto ia no seu passo lento, sendo arrastada pelo seu dono, acabou ficando presa em uma das poltronas. Normal. As malas costumam esbarrar. O seu dono puxou-a e ela voltou ao seu caminho. Eu acabei chegando mais perto dele. Ela - a mala - se encontrava feliz e saltitante, agora no seu caminho novamente. Por um segundo imaginei 'e se a mala se ficasse presa novamente na poltrona logo em frente?'. E, como se aquele pensamento fosse o motivo da desgraça daquela mala, ela acabou ficando presa. Deu pra ver a vergonha que ela sentiu. Ela falhou no seu trabalho, seu único trabalho. O rapaz parecia aborrecido por ter sido feito de bobo, ao arrastar uma mala. Afinal ela ficou presa duas vezes ao passar entre as poltronas de um avião. E ela sabia disso, ela estava desolada, o quê que ela iria fazer agora? Já não servia de nada. O seu dono puxou-a novamente para o meio da poltronas, dava ver que, de fato, ele estava levemente aborrecido por ter quase parado e interrompido o fluxo de pessoas no corredor. Ele continuou a andar. A mala já não esboçava reação; estava atônita, parecia só ver o mundo ao seu redor ir e vir, não queria mais fazer o que fazia melhor, porque não podia fazer o seu melhor, ela não conseguia, era impossível. Naquele momento o seu destino aparentava estar traçado e, novamente, a mala ficou presa. Eu tive que parar, cheguei muito perto do mala e do seu dono. Agora, com certeza, ele sentia no mínimo algum constrangimento; a situação era boba e levemente cômica. O corredor não estava vazio, mas, apesar de só eu e ele estarmos andando e de que havia bastante espaço na frente e atrás de nós dois, ainda assim ele acabou me fazendo parar e esperar. Ele parou, deu mais um passo, puxou e levantou mala em direção ao bagageiro. Agora ela estava acomodada, quieta ali no bagageiro. Provavelmente uma das rodinhas estava com problemas, da pra consertar.
12/12/17

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Superfície

Uma área delimitada.
Por um conjunto finito de pontos num plano, pode ser representada.
A parte externa e 'visivel' dos corpos.
Superficialmente, reprentei só meus sentimentos.
Várias definições, vários significados e descontentamentos.
Mr M: te engana, te ilude
Falsas promessas, palavras vazias, talvez ajude.
Dicionário repleto de letras desenhadas
Figurativo, pronome, gênero, hoje não importam nada.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Continuemos

Continuemos a andar
Só nós.
Sozinhos nós vamos longe
Vamos lembrando um do outro
Se ajudando
Se amando
Se cuidando
Nós vamos.
Vamos bem longe
Você acha que não vai conseguir, mas vai
Veja onde já chegamos,
Veja onde nós estávamos,
Calma
Me empurre pra frente
Que te ajudo a subir
Continuemos a nos ajudar
Nós estamos só começando.

domingo, 15 de outubro de 2017

Ansiedade

To bem cansado daqui apesar de tudo ao meu redor estar muito bom.
Cansado não, apreensivo.
Como se algo ruim estivesse prestes a acontecer, como se fosse a calmaria que precede a tempestade.
Como se isso tudo que ta acontecendo ao meu redor fosse desabar a qualquer momento.
Como se o peso de tudo aquilo que eu falo, faço e até penso fosse finalmente ser cobrado de mim, cobrado em ouro.
Parece que contraí uma dívida crescente que parece não ter fim e não tenho a menor ideia de como vou pagá-lo.
Não tenho a menor ideia a quem pagá-lo.
É um monstro invisível que a qualquer momento vai saltar das profundezas e me desmascarar, me pôr abaixo.
E ali, naquele ato, irá me destruir, acabar comigo.