O rapaz na minha frente caminhava lentamente dentro do avião, segurava um livro numa das mãos e puxava a sua mala de rodinhas. Era uma mala particularmente pequena, e enquanto ia no seu passo lento, sendo arrastada pelo seu dono, acabou ficando presa em uma das poltronas. Normal. As malas costumam esbarrar. O seu dono puxou-a e ela voltou ao seu caminho. Eu acabei chegando mais perto dele. Ela - a mala - se encontrava feliz e saltitante, agora no seu caminho novamente. Por um segundo imaginei 'e se a mala se ficasse presa novamente na poltrona logo em frente?'. E, como se aquele pensamento fosse o motivo da desgraça daquela mala, ela acabou ficando presa. Deu pra ver a vergonha que ela sentiu. Ela falhou no seu trabalho, seu único trabalho. O rapaz parecia aborrecido por ter sido feito de bobo, ao arrastar uma mala. Afinal ela ficou presa duas vezes ao passar entre as poltronas de um avião. E ela sabia disso, ela estava desolada, o quê que ela iria fazer agora? Já não servia de nada. O seu dono puxou-a novamente para o meio da poltronas, dava ver que, de fato, ele estava levemente aborrecido por ter quase parado e interrompido o fluxo de pessoas no corredor. Ele continuou a andar. A mala já não esboçava reação; estava atônita, parecia só ver o mundo ao seu redor ir e vir, não queria mais fazer o que fazia melhor, porque não podia fazer o seu melhor, ela não conseguia, era impossível. Naquele momento o seu destino aparentava estar traçado e, novamente, a mala ficou presa. Eu tive que parar, cheguei muito perto do mala e do seu dono. Agora, com certeza, ele sentia no mínimo algum constrangimento; a situação era boba e levemente cômica. O corredor não estava vazio, mas, apesar de só eu e ele estarmos andando e de que havia bastante espaço na frente e atrás de nós dois, ainda assim ele acabou me fazendo parar e esperar. Ele parou, deu mais um passo, puxou e levantou mala em direção ao bagageiro. Agora ela estava acomodada, quieta ali no bagageiro. Provavelmente uma das rodinhas estava com problemas, da pra consertar.
domingo, 17 de dezembro de 2017
Míope
O rapaz na minha frente caminhava lentamente dentro do avião, segurava um livro numa das mãos e puxava a sua mala de rodinhas. Era uma mala particularmente pequena, e enquanto ia no seu passo lento, sendo arrastada pelo seu dono, acabou ficando presa em uma das poltronas. Normal. As malas costumam esbarrar. O seu dono puxou-a e ela voltou ao seu caminho. Eu acabei chegando mais perto dele. Ela - a mala - se encontrava feliz e saltitante, agora no seu caminho novamente. Por um segundo imaginei 'e se a mala se ficasse presa novamente na poltrona logo em frente?'. E, como se aquele pensamento fosse o motivo da desgraça daquela mala, ela acabou ficando presa. Deu pra ver a vergonha que ela sentiu. Ela falhou no seu trabalho, seu único trabalho. O rapaz parecia aborrecido por ter sido feito de bobo, ao arrastar uma mala. Afinal ela ficou presa duas vezes ao passar entre as poltronas de um avião. E ela sabia disso, ela estava desolada, o quê que ela iria fazer agora? Já não servia de nada. O seu dono puxou-a novamente para o meio da poltronas, dava ver que, de fato, ele estava levemente aborrecido por ter quase parado e interrompido o fluxo de pessoas no corredor. Ele continuou a andar. A mala já não esboçava reação; estava atônita, parecia só ver o mundo ao seu redor ir e vir, não queria mais fazer o que fazia melhor, porque não podia fazer o seu melhor, ela não conseguia, era impossível. Naquele momento o seu destino aparentava estar traçado e, novamente, a mala ficou presa. Eu tive que parar, cheguei muito perto do mala e do seu dono. Agora, com certeza, ele sentia no mínimo algum constrangimento; a situação era boba e levemente cômica. O corredor não estava vazio, mas, apesar de só eu e ele estarmos andando e de que havia bastante espaço na frente e atrás de nós dois, ainda assim ele acabou me fazendo parar e esperar. Ele parou, deu mais um passo, puxou e levantou mala em direção ao bagageiro. Agora ela estava acomodada, quieta ali no bagageiro. Provavelmente uma das rodinhas estava com problemas, da pra consertar.
segunda-feira, 11 de dezembro de 2017
Superfície
Uma área delimitada.
Por um conjunto finito de pontos num plano, pode ser representada.
A parte externa e 'visivel' dos corpos.
Superficialmente, reprentei só meus sentimentos.
Várias definições, vários significados e descontentamentos.
Mr M: te engana, te ilude
Falsas promessas, palavras vazias, talvez ajude.
Dicionário repleto de letras desenhadas
Figurativo, pronome, gênero, hoje não importam nada.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Continuemos
Só nós.
Sozinhos nós vamos longe
Vamos lembrando um do outro
Se ajudando
Se amando
Se cuidando
Nós vamos.
Vamos bem longe
Você acha que não vai conseguir, mas vai
Veja onde já chegamos,
Veja onde nós estávamos,
Calma
Me empurre pra frente
Que te ajudo a subir
Continuemos a nos ajudar
Nós estamos só começando.
domingo, 15 de outubro de 2017
Ansiedade
To bem cansado daqui apesar de tudo ao meu redor estar muito bom.
Cansado não, apreensivo.
Como se algo ruim estivesse prestes a acontecer, como se fosse a calmaria que precede a tempestade.
Como se isso tudo que ta acontecendo ao meu redor fosse desabar a qualquer momento.
Como se o peso de tudo aquilo que eu falo, faço e até penso fosse finalmente ser cobrado de mim, cobrado em ouro.
Parece que contraí uma dívida crescente que parece não ter fim e não tenho a menor ideia de como vou pagá-lo.
Não tenho a menor ideia a quem pagá-lo.
É um monstro invisível que a qualquer momento vai saltar das profundezas e me desmascarar, me pôr abaixo.
E ali, naquele ato, irá me destruir, acabar comigo.
domingo, 3 de setembro de 2017
Novas conexões
O engraçado é, a medida que vamos conhecendo novas pessoas e nos identificamos com diferentes grupos, e criamos novas conexões, sentimos que algumas delas nos faltam.
Você sente isso,
Seu peito clama por isso,
Sua mente te atormenta,
Sua respiração muda,
Seu corpo sente que precisa disso.
Mais engraçado ainda é ser capaz de sentir essa necessidade de se conectar mesmo antes de conhecer quem estabelecerá essa conexão com você.
É bonito pensar que algo tão específico e intrínseco seja capaz de te apontar para outra pessoa. Que algo tão pessoal te faça querer conhecer outra pessoa.
Alguém a quem você irá se conectar por aquele primeiro canal e que talvez ele seja o primeiro de muitas outras interações.
Talvez não. E tudo bem, se não.
Ou talvez esse meu eu ainda é muito ingênuo de achar que toda a conexão que sinto necessidade, irá acontecer. Será possível 'estabelecer uma conexão com sucesso'.
Mas não é dessa forma que o mundo funciona.
Ainda assim, continuo.
Continuo porque nada me faz mais vivo do que a ideia de poder me conectar com quem necessito. Ou de ter a felicidade de poder ser a conexão que faltava na vida de alguém.
terça-feira, 29 de agosto de 2017
Nunca pare na pista
não quero desistir
mas não sei o que devo fazer.
eu quero continuar
meus ânimos se esgotaram
talvez por falta de estímulo
não por falta de apoio
mas pela ausência de caricia no ego
talves fosse isso, a necessidade de se sentir melhor
mais que melhor, superior.
nada que você faz agora,
nada,
nada importa, mas
Nunca pare na pista
Nunca pare
Nunca
Agir te torna vivo
É sempre melhor estar vivo do que estar morto.
O único impossível da vida é parar.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Ele foi
Não que fosse, de fato, a única
Mas era única para ele,
Assim como aquele amor que passou.
Não foi único mas o único até ali.
Ele foi
Continuou indo
Apoiaram-no
Parabenizaram-no pela sua ousadia
Mas nunca alguém lhe perguntou se aquele era o caminho certo
Nem ele mesmo sabia, como que iria saber?
Nunca deixaram-no solto, vivia em um ambiente controlado
O estranho é: sempre foi tão confortável, tão bom
Estar ali, rodeado, tendo o ego acariciado
E ele foi
Foi bem longe
Tão longe que nem mesmo ele pôde imaginar onde iria chegar.
Foi bem recebido.
E ali, bem longe, percebeu o que havia perdido tempo.
Ele foi e gostou,
Gostou muito.
A princípio, hesitou,
Como quem coloca primeiro um dos pés na água de uma piscina gelada.
Mas notou que, assim como a piscina gelada, aquele frio o atraía.
E como isso em mente, mergulhou.
Mergulhou de cabeça em um mundo diferente daquele que vivia
Se sentia tão bem ali,
Apesar do frio e das vezes que engoliu água,
Gostava dali.
Era bom.
Era muito melhor que tudo que tinha acontecido até ali.
Se sentia vivo, como nunca havia estado antes.
Ele foi.
Viveu o inimaginável.
Não acreditaria se lhe contassem tudo aquilo que estava acontecendo,
Não acreditaria se ele mesmo lhe contasse.
Impossível.
Durante a jornada, adoeceu.
Um vírus, adormecido dentro dele, acordou com toda aquela agitação.
Ele tomou uns remédios e passou,
Mas nunca se curou de verdade,
Sempre havia aquele pigarro.
Disfarçava a tosse, achava que ninguém iria perceber.
Se enganava.
Evitava até pensar na doença,
Não queria acordá-la.
Essa doença, na verdade, era um ideia;
Que, como um vírus,
Altamente contagiosa e resiliente,
Sempre retornava.
Retornava para atormentá-lo.
Ele foi,
Mas percebeu que não tinha a menor ideia para onde estava indo
E não gostava da ideia de que tudo aquilo que percorreu foi em vão.
Entretanto, era o que parecia.
Essa era a ideia, esse era o vírus.
Lhe doía pensar que precisou ir tão longe para saber que estava perdido,
Já era muito fundo, tudo era escuro.
Talvez nem fosse possível retornar à superfície,
Não tinha forças para emergir,
Se afogaria antes que conseguisse.
Ele foi,
Continuou indo,
Continuou mesmo sem saber se estava indo pelo caminho certo.
Mas continuou mesmo assim,
Na esperança de que
No caminho,
Ou no fim,
Encontrasse o remédio que curasse a sua doença.
g.a.
02:58